#92 fluente | eu consigo parecer. não é a mesma coisa.
contos de gin
eu já estou sentada quando o primeiro movimento do dia começa a se organizar no café. há algo no ritmo das pessoas entrando que sempre me chama mais atenção do que qualquer conversa que eu poderia ter ali — a forma como empurram a porta, como hesitam ou não antes de escolher uma mesa, o tempo que levam até tirar o celular da bolsa. o corpo inteiro denunciando decisões que parecem pequenas demais para serem notadas por quem as executa. eu encosto o caderno na borda da mesa, abro em uma página qualquer, deixo a caneta atravessada no meio — não para escrever de imediato, mas para marcar território. uma justificativa silenciosa para permanecer ali por horas sem precisar interagir com ninguém além do necessário.
a Marina me cumprimenta pelo nome enquanto passa com duas xícaras. o Rafa levanta a mão do balcão sem interromper o pedido de outra pessoa. eu respondo com um gesto rápido, sem prolongar, porque gosto desse tipo de reconhecimento que não exige continuidade — que não se transforma em conversa. peço o café do jeito que eles já sabem, sem precisar explicar. há uma sensação breve de encaixe nisso. dura pouco.
as pessoas chegam em pares, em grupos pequenos, às vezes sozinhas. cada entrada reorganiza o espaço de uma forma quase imperceptível — cadeiras puxadas, bolsas colocadas no chão ou no colo, corpos que se inclinam ou se afastam dependendo da proximidade com o outro. eu começo a acompanhar esses movimentos como quem tenta decifrar uma língua que todo mundo parece falar fluentemente. há uma mulher que entra com passos rápidos demais para alguém que veio tomar café — olha ao redor como se estivesse atrasada para alguma coisa que ainda não começou, escolhe a mesa mais próxima da porta, senta sem tirar o casaco, o corpo inteiro apontando para a saída. eu fico tentando entender se isso é ansiedade, hábito, ou apenas um gesto que não carrega nada além de si mesmo.
na mesa ao lado, duas pessoas conversam inclinadas uma em direção à outra. há um momento em que uma delas toca o braço da outra — um toque breve, menos de um segundo — e eu fico presa nesse gesto mínimo, tentando decidir se aquilo é proximidade, flerte, conforto ou apenas um movimento automático que não significa nada além do que foi. é nesse tipo de detalhe que o cansaço começa a aparecer. não como exaustão física — como um esforço contínuo de atenção que não desliga, que transforma qualquer interação simples em uma sequência de hipóteses que nunca se confirmam completamente.
eu tomo um gole do café sem olhar para a xícara, porque o que me interessa está sempre acontecendo um pouco além do que consigo alcançar. há um homem que ri alto demais para o tamanho da conversa, inclina o corpo para trás como se ocupasse mais espaço do que precisa. a pessoa à frente responde com um sorriso menor, mais contido. eu fico tentando medir essa diferença — entender se há um descompasso ali, se um está mais envolvido do que o outro. e percebo, com uma clareza que não me ajuda em nada, que esse tipo de leitura não termina nunca. não chega a uma conclusão. não oferece descanso.
o caderno continua aberto. eu não escrevo. porque aqui está o pensamento que eu não digo para ninguém: eu prefiro ficar do lado de fora.
não porque não consigo entrar. consigo, com esforço, com cálculo, com aquele microssegundo de preparação que ninguém vê mas que eu executo antes de qualquer interação. consigo parecer fluente. consigo ser lida como alguém que está presente. mas do lado de fora o mundo é mais legível — os gestos fazem mais sentido quando observados do que quando vividos, as conversas têm uma lógica que só aparece quando você não está dentro delas tentando corresponder em tempo real. e há um prazer pequeno nisso, quase envergonhante, que eu não admitiria numa conversa — o prazer de entender sem precisar participar.
eu não sei se isso é proteção ou preferência. suspeito que já não importa.
a tarde avança e o café se enche e esvazia em ciclos. pessoas chegam, ocupam, vão embora. eu permaneço. o caderno ainda aberto, ainda em branco, a caneta atravessada no meio como se estivesse esperando uma decisão que não vem.
observo uma despedida na mesa perto da janela — um abraço que dura um pouco mais do que o necessário, um afastamento leve seguido de um sorriso que não sei classificar. e por um segundo eu penso em como deve ser atravessar isso sem precisar nomear, sem precisar armazenar o gesto para análise posterior.
eu baixo os olhos para o meu café, já frio. passo a mão pela borda da xícara, sentindo a temperatura que já não está ali.
o que para eles é automático, para mim nunca deixa de ser cálculo.
nos vemos na próxima semana até lá, escrevam, observem, ou pelo menos prestem atenção nas conversas estranhas dentro da própria cabeça.
escrever exige estudo, uma insistência meio teimosa e tempo. e tempo custa dinheiro. por R$ 20,00 mensais, você apoia o meu trabalho e em troca, conhece o processo: bastidores, spoilers, trechos que não foram ao ar, conversas e um telegrama exclusivo que achega até você.
PS: terminei a revisão do meu livro AMANHÃ ÀS 19:30. pensando se compartilho alguns trechos por aqui. o que vocês acham?



