a gente reorganiza a narrativa para que ela pareça suficiente
toda segunda-feira | contos de gin // 90
a taça já está na minha mão quando alguém bate com o garfo no vidro, aquele som fino que atravessa a conversa e reorganiza a mesa sem precisar de autoridade formal. eu paro de mastigar no meio — não porque estou interessada no discurso, mas porque o corpo responde antes da vontade — e olho em volta para as mulheres sentadas ali, algumas de pé, encostadas nas cadeiras, todas com algum tipo de brilho controlado, maquiagem que não escorre, vestidos que não apertam demais, saltos que já começaram a incomodar mas ainda não foram abandonados. o restaurante tem luz baixa, mesa comprida, velas que não iluminam o suficiente para ver detalhes demais. isso ajuda. ninguém ali parece interessado em detalhes hoje.
“gente, um brinde”, alguém diz, levantando a taça um pouco mais alto do que o necessário. eu levanto a minha também — não por entusiasmo, mas porque é isso que se faz — e olho para a aniversariante, que sorri com um tipo de cansaço elegante, aquele que parece gratidão mas também parece cálculo.
“quarenta”, alguém diz.
a palavra não chega como surpresa. é mais uma confirmação que ninguém pediu — e mesmo assim ela se instala na mesa com um peso específico, como se tivesse sido colocada ali fisicamente, entre os pratos e as garrafas.
alguém ri. “nem parece”, outra responde. e isso vira uma sequência de frases que já existem antes de serem ditas — “quarenta é o novo trinta”, “estamos melhores agora”, “mais maduras, mais seguras” — e eu acompanho com um sorriso que não se compromete, um movimento automático de concordância que não exige reflexão.
as taças se encontram. o som é coletivo. breve.
cada uma bebe um gole, e há um segundo de silêncio depois, um espaço curto onde nada precisa ser dito imediatamente. é nesse espaço que a régua aparece — não como ideia, como sensação.
uma fala do trabalho, do projeto novo, da promoção que ainda não veio mas está próxima. outra comenta da mudança de apartamento, do financiamento, da reforma que atrasou. alguém menciona o filho que começou a escola. outra fala que ainda não decidiu se quer ter, mas já congelou óvulos, só para garantir, como quem deixa uma porta aberta sem ter certeza se quer passar por ela. tudo é dito com leveza — ou com o esforço de parecer leve.
“e você?”, alguém me pergunta. a pergunta não é invasiva, é uma dessas perguntas sociais que parecem interesse mas funcionam como atualização de status. eu respondo. não lembro exatamente o quê. algo suficiente. algo que não abre margem para aprofundamento.
a conversa segue. os pratos chegam. alguém derruba vinho. alguém limpa com guardanapo. tudo continua funcionando. a régua já está ali. invisível. ativa.
e o mais estranho é perceber que ninguém ali parece completo. há sempre alguma coisa fora do lugar — um atraso, um excesso, um desvio. isso deveria ser reconfortante, criar uma sensação de igualdade, de que o roteiro não se cumpriu para nenhuma de nós da forma como foi prometido. e, de alguma forma, cria. mas não é alívio limpo. é um tipo de alívio atravessado, quase cínico — como se a falha coletiva fosse o que nos mantém no mesmo nível.
alguém faz uma piada sobre não ter comprado imóvel ainda. outra responde que pelo menos não teve filho. outra diz que pelo menos não teve marido. e os “pelo menos” começam a se acumular como pequenas justificativas empilhadas, cada uma protegendo um ponto frágil, cada uma reorganizando a narrativa para que ela pareça suficiente.
eu rio. todas riem. não porque é engraçado. porque é necessário.
o garçom passa oferecendo mais vinho. eu aceito. giro a taça um pouco antes de beber — um gesto aprendido que não muda nada, mas parece indicar algum tipo de controle.
há uma circulação de temas que se alternam sem aprofundar, como se aprofundar fosse arriscado demais para o equilíbrio da noite. alguém fala de uma viagem. alguém de um livro que não conseguiu terminar. alguém de uma terapia que está “pegando pesado”. e eu continuo olhando — não só as outras. a mim. o que eu achei que teria. o que tenho. o que deixei de lado por escolha, ou por falta dela.
a aniversariante ri de novo, agora mais solta, talvez pelo vinho, talvez pelo cansaço de sustentar uma imagem que já não precisa ser tão rígida. alguém comenta que estamos “todas bem”, e essa frase circula com uma aceitação rápida demais, como se ninguém quisesse testá-la de verdade.
há um momento — pequeno e quase imperceptível — em que ninguém está falando diretamente comigo. eu fico ali, com a taça na mão, olhando para a mesa.
e penso uma coisa que não ofereço a ninguém: que se todas nós tivéssemos conseguido exatamente o que queríamos, talvez não estivéssemos sentadas aqui, brindando juntas.
e não tenho certeza se isso é bom.
nos vemos na próxima semana até lá, escrevam, observem, ou pelo menos prestem atenção nas conversas estranhas dentro da própria cabeça.
escrever exige estudo, uma insistência meio teimosa e tempo. e tempo custa dinheiro. por R$ 20,00 mensais, você apoia o meu trabalho e em troca, conhece o processo: bastidores, spoilers, trechos que não foram ao ar, conversas e um telegrama exclusivo que achega até você.
PS: estou na décima segunda versão da mesma cena do roteiro. a cena tá ótima. eu que não tô. o filme continua existindo, e a gravação começa em julho.



