contos de gin // #89
contenção não é falta de coragem. é escolha
crônicas sobre fracasso adulto, amizade e pequenos colapsos da vida moderna
eu estou de pé na cozinha, com a porta da geladeira aberta, segurando uma colher dentro de um pote de iogurte que eu nem queria tanto assim. a luz branca bate direto no rosto. a televisão ligada na sala atravessa o corredor com vozes altas demais para ignorar, e eu fico nesse meio — nem na cozinha, nem na sala — como se estivesse ocupando um espaço provisório, onde não preciso decidir nada com urgência. apenas mastigar alguma coisa fria e acompanhar de longe o que está acontecendo.
o episódio já está avançado quando eu paro de fingir que não estou assistindo.
não é uma cena construída, não tem trilha dramática, não tem enquadramento especial. é só ela falando, interrompendo, atravessando uma conversa com a segurança de quem não pede licença para existir naquele espaço. há uma simplicidade no gesto que me prende mais do que qualquer explosão planejada — porque não parece um ato, não parece estratégia, não parece cálculo.
parece só ela.
eu encosto a porta da geladeira com o quadril sem tirar os olhos da televisão, a colher ainda parada na boca, o frio do iogurte já sem gosto. ela fala de novo. não levanta a voz, não suaviza, não explica. o resto da casa reage como sempre reage — alguns riem, outros se incomodam, alguém revira os olhos — mas ela não ajusta o tom para caber melhor no ambiente, não corrige a própria presença para evitar atrito.
eu fecho a geladeira. o clique é seco. o corredor fica um pouco mais escuro sem a luz branca.
eu caminho até a sala e me sento no braço do sofá — não no lugar confortável, não no lugar de assistir direito, mas nesse meio onde eu posso sair a qualquer momento, onde não me comprometo completamente com a cena.
mas eu já estou comprometida. não estou admirando. há algo mais próximo de um reconhecimento que não pede permissão para acontecer — um tipo de identificação que não é bonito, não é aspiracional, é incômodo porque revela uma diferença que não deveria ser tão grande quanto é.
eu olho para ela e não penso “eu queria ser assim”. eu penso “eu poderia ser assim”. e é aí que alguma coisa trava.
eu penso em quantas vezes medi uma frase antes de falar. quantas vezes ajustei o tom. quantas vezes interrompi um pensamento no meio porque ele poderia ser mal recebido, mal interpretado, mal enquadrado. quantas vezes preferi parecer fácil. agradável. coerente. há uma lista que eu percorro com uma rapidez quase automática, como quem conhece o trajeto de cor — e uma irritação que começa a crescer, não direcionada a ela, mas ao espaço que se abre entre nós duas.
porque não é um espaço de diferença essencial. é um espaço de contenção.
ela continua falando. não há hesitação, não há esse microssegundo em que o corpo pede autorização antes de se expressar. alguém corta a fala dela. ela retoma — não pede a palavra de volta, simplesmente pega. e eu sinto um desconforto físico nisso, não porque é agressivo, mas porque é direto demais, porque não há esse jogo de equilíbrio que eu aprendi a sustentar como se fosse uma regra básica de convivência.
eu pego o controle remoto. baixo o volume. não desligo. não consigo desligar.
eu volto para o braço do sofá e fico ali com um tipo de atenção que não é entretenimento — é quase vigilância. como se eu estivesse tentando flagrar o momento em que ela falha, em que ela recua, em que corrige alguma coisa para se ajustar melhor.
não vem. e isso me irrita mais do que deveria. porque eu sei que há um preço nisso — rejeição, julgamento, consequência. e, ainda assim, há uma liberdade que não depende da ausência dessas coisas. uma liberdade que existe apesar delas.
eu cruzo os braços. descruzo. passo a mão no rosto. e é nesse momento que o pensamento se forma com uma clareza que eu não gosto de sustentar por muito tempo.
não é inveja. não é admiração. é a percepção de que eu não faço isso porque não quero pagar o preço. não porque não posso. não porque não sei. porque não quero.
eu fico ali, com o som da televisão mais baixo do que deveria, como se estivesse assistindo escondida de mim mesma. o incômodo não cresce nem diminui — apenas permanece, como uma informação que não pode mais ser desvista.
ela continua sendo. eu continuo ajustando. e o que me impede não é falta de coragem. é escolha.
nos vemos na próxima semana até lá, escrevam, observem, ou pelo menos prestem atenção nas conversas estranhas dentro da própria cabeça.
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