contos de gin // #87
uma que não precisa provar nada. outra que ainda não sabe como parar de tentar.
crônicas sobre fracasso adulto, amizade e pequenos colapsos da vida moderna
eu estou sentada no chão do quarto, com o guarda-roupa aberto na minha frente. as roupas estão organizadas por cor — preto, branco, um ou outro bege tímido, algumas listras — cabides iguais, distância medida entre uma peça e outra, como se aquilo fosse um sistema funcional e não uma tentativa de manter alguma coisa sob controle. eu fico ali com uma camisa off white na mão, ainda com o peso da decisão mais simples do mundo, que é vestir qualquer coisa que já sei que vai funcionar.
o ipad apoiado na cama está com a tela acesa, a série pausada no mesmo frame: Carolyn Bessette atravessando uma sala com um casaco, óculos escuros, a bolsa pequena no braço. um gesto que parece não pedir licença para ocupar espaço — e ao mesmo tempo não parece interessado em ocupar espaço nenhum. eu olho para aquilo com uma atenção que não é sobre a cena. é sobre o que eu não consigo reproduzir.
já assisti essa cena umas três vezes. não porque perdi algum detalhe. mas porque há uma ausência ali que me prende mais do que qualquer presença — uma economia de gesto que parece natural demais para ser natural. e essa dúvida me irrita mais do que deveria, porque não é uma irritação estética. é uma irritação quase íntima, como se eu estivesse diante de alguém que não precisa justificar a própria existência. enquanto eu, mesmo parada, mesmo em silêncio, mesmo dentro do meu próprio apartamento, continuo justificando cada movimento.
eu tiro a camisa do cabide e visto sem pensar muito. meu guarda-roupa não exige pensamento — exige repetição. e repetição é confortável, repetição é segura, repetição elimina erro. nos últimos anos eu treinei para ser boa nisso: reduzir possibilidades até sobrar apenas o que funciona, o que não chama atenção, o que não abre margem para interpretação.
quando me olho no espelho com a camisa ajustada, o cabelo preso de um jeito que até parece proposital, o rosto só blush e rímel, eu vejo uma versão coerente de mim mesma. uma versão que poderia sair agora, ocupar qualquer espaço sem causar estranhamento, sem gerar ruído. isso deveria ser suficiente. para mim não é.
o celular vibra e eu já sei o que é antes de olhar — não porque reconheço o som, mas porque reconheço o padrão. eu abro o instagram quase por reflexo, como quem verifica uma ferida para ver se ainda dói. a tela me devolve o que sempre devolve: pessoas que parecem ter entendido alguma coisa que eu ainda estou tentando formular. pessoas que aparecem com naturalidade suficiente para que a exposição pareça efeito colateral, não estratégia.
eu fecho o celular e volto os olhos para o ipad. dou play. Carolyn entra em um restaurante, senta com precisão, cruza as pernas sem hesitar, segura uma taça de vinho que não parece interferir em nada. há uma contenção ali que não é esforço visível — é quase uma decisão estrutural de não se oferecer demais ao olhar dos outros. e isso me prende de um jeito que eu não gosto de admitir.
eu pauso de novo.

o quarto volta ao silêncio, e é nesse silêncio que outra imagem aparece — não na tela, mas na memória. o banco de trás do carro, a minha cabeça levemente pra fora da janela, sem cinto de segurança, o corpo solto, sem nenhuma consciência de como eu estava sendo vista, porque não havia ninguém vendo, ninguém registrando, ninguém organizando aquilo em narrativa. eu lembro de contar postes, de cantar músicas que não tinham função além de ocupar o espaço. sei até hoje a música do rato — “rato, meu querido rato...” — e continuo mentalmente sem perceber.
eu também sei como se faz vidro. areia, calor, transformação. aprendi assistindo TV Cultura, sentada no chão da sala, sem nenhuma intenção de aplicar esse conhecimento em nada. era só curiosidade. e fico pensando em como aquilo bastava — como não havia nenhuma exigência de transformar curiosidade em conteúdo, experiência em narrativa compartilhável.
eu volto para o presente com o celular na mão. abro a câmera frontal, me vejo. inclino o celular, ajusto a luz, solto o cabelo, prendo de novo, procuro um ângulo que pareça menos pensado — mas tudo ali é pensado demais, consciente demais. fecho a câmera. abro o bloco de notas, escrevo alguma coisa, apago. a frase não sustenta, não porque seja ruim, mas porque parece destinada a alguém. e escrever para alguém não é a mesma coisa que escrever.
eu me levanto, vou até a cozinha, abro a geladeira sem intenção, fecho sem pegar nada. volto para o quarto.
a camisa já não parece tão certa quanto parecia antes. eu a tiro, deixo cair na cadeira, onde ela se mistura com outras peças — todas parecidas o suficiente para que nenhuma se destaque. fico de calcinha e camiseta velha olhando para o espelho. essa versão é mais honesta. menos organizada. e talvez seja isso que me incomoda: sem construção não há narrativa, e sem narrativa não há nada que se sustente fora do meu próprio espaço.
há um pensamento que se forma com uma clareza que não me orgulha: eu não quero negociar isso. não quero transformar presença em estratégia, não quero me oferecer em doses calculadas para construir uma imagem maior. mas também sei que sem isso, o que eu escrevo fica aqui, nesse quarto, entre o espelho e o guarda-roupa aberto.
o ipad continua pausado. Carolyn no meio do gesto, intacta.
e eu olho para o meu reflexo na tela preta — duas imagens sobrepostas, uma que não precisa provar nada, outra que ainda não sabe como parar de tentar — e entendo, com uma clareza que não resolve nada, que o que eu invejo não é o estilo.
é a liberdade de não precisar ser vista para existir.
nos vemos na próxima semana até lá, escrevam, observem, ou pelo menos prestem atenção nas conversas estranhas dentro da própria cabeça.
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