contos de gin // #84
não vivemos o melhor. vivemos o aviso.
crônicas sobre fracasso adulto, amizade e pequenos colapsos da vida moderna
floripa, ilha de desterro
existe uma ressaca bancária,
pré fim do mundo. dúvidas gerais sobre o amanhã.
encho o tanque do carro sempre que vejo um posto de gasolina.
a conta chega dobrada no suporte de madeira, entre duas taças vazias. ainda há gelo derretendo no fundo do copo; o limão já mole na borda. eu e Theo olhamos o valor impresso como se fosse um veredicto.
“deixa que essa eu pago”, já abrindo o app do banco. a tela ilumina o rosto dele por baixo, deixando as olheiras mais marcadas. eu não insisto para dividirmos, apenas aceito a gentileza. a quantia é alta porque a gente riu escandalosamente e pediu a terceira, quarta e quinta rodada — e às vezes rir custa caro. eu empurro o suporte de madeira para o centro da mesa, como se o gesto pudesse reduzir o número.
“era pra gente estar vivendo o melhor”, eu digo. “trinta e cinco anos. estabilidade. casa própria. reformas. alguma coisa nossa.” a frase sai com a vontade de um refrão repetido — a letra que todo mundo canta mas ninguém compôs.
Theo ri pelo nariz. passa a mão no cabelo, gesto automático. “eu tenho uma planta que está quase morrendo. conta?” o riso é defesa. ele gira o celular, mostrando débitos automáticos: terapia — que ele não falta, streaming que acumulou, parcela do curso que prometeu nova carreira. ele levanta os olhos. “a gente até planeja, mas a planilha fecha em vermelho.”
lá fora, o noticiário é outra fatura. não é só o aluguel que sobe: o mundo apita. nas últimas semanas, uma sequência de ataques e contra-ataques transformou o mapa em notícia ao vivo — Estados Unidos e Israel lançaram operações contra instalações iranianas e houve resposta de Teerã, com perigo real de escalada regional e de danos a rotas essenciais de petróleo. especialistas apontam que, enquanto os ataques se mantiverem em alvos militares há margem para não alastrar, qualquer passo contra infraestrutura civil ou ataques de retaliação fora do teatro poderia levar o conflito para outro nível.
não é teoria: o preço do petróleo subiu, navios evitaram o estreito de Hormuz e seguros de carga cancelaram apólices, tudo junto empurrando combustíveis e gás para cima — e quando combustível sobe, tudo sobe. empresas cortaram produção, rotas mudaram, e a frase “era pra gente ter 35 anos e vivendo o melhor” começou a soar como piada de mau gosto diante do extrato bancário.
o fundo também empilha números frios: o crescimento global desacelera; a inflação, que caiu do pico pós-pandemia, estancou em patamares que ainda apertam orçamento familiar. o relatório mais recente do FMI mostra uma economia mundial que anda mancando — crescimento menor, inflação ainda presente, e países lidando com choques de oferta que reverberam direto no carrinho de supermercado.
e sob tudo isso há um pano de fundo que ninguém quer transformar em tópico de jantar: a casa que a gente sonhou não é só financeira — é física, é a cidade que vai ficar mais quente, o verão ameaça derreter a janela de vidro, enchentes que aconteceram nas notícias e viraram normalidade nos relatórios científicos. os balanços não trazem mais debate; trazem leitura: limites ultrapassados, riscos maiores, necessidade de adaptação que custa dinheiro. quando o clima acelera, tudo o mais — preço, produção, moradia — também se reorganiza de modo menos favorável para quem não herdou terra nem carteira de investimento.
voltamos à mesa e àquelas palavras pequenas que a gente usa para segurar o tom. Theo fala da psicóloga que o cutucou na última sessão: “o que você quer construir?” ele riu e disse que não sabia. eu lembro da minha própria sessão, da pergunta que doeu porque não tinha resposta pronta: se eu tivesse de escolher entre liberdade e segurança, eu escolheria o quê? a terapeuta não precisava responder. eu também não.
a verdade que a gente evita dizer em voz alta surge como mau hálito no dia seguinte: às vezes a gente olha as fotos da turma que herdou e deseja que o mundo se iguale. não por maldade programada, mas porque a desigualdade é uma promessa que dói; porque ver chave de apartamento na mão do colega às vezes acende tanta raiva quanto vontade de acertar os próprios números. esse pensamento é simples e feio: invejo a calma de quem nunca encarou a fatura do cartão de crédito para decidir se vale ou não jantar naquele restaurante favorito. prefiro não dizer isso para Theo. prefiro não dizer para ninguém.
mas voltar à mesa do bar e falar sobre isso não resolve. Theo diz que a gente ainda viaja, que planeja feriados, que se diverte — e é verdade: planilhas e glitter convivem. a gente pula fim de semana, monta roteiro, posta foto com luz boa. ainda saímos, rimos, andamos no mundo com passos leves. só que cada manhã traz o extrato com ressaca. o boleto abre um buraco que ontem não estava lá e amanhã talvez seja outro. e, em paralelo, tem a notícia de um ataque que fecha o seguro de navio, o relatório que pede adaptação para cidades costeiras, o preço da gasolina que sobe mais uma vez. são agulhas em caixas diferentes furando o mesmo pneu.
na esquina onde separamos — ele para o metrô; eu sigo a pé — a cidade continua com seu ruído: buzina, gente falando alto no telefone, luz de propaganda piscando. passo em frente a um prédio novo, fachada espelhada, varanda ridiculamente pequena, uma promessa de lar em 30m². penso em quanto custaria a parcela. penso na planilha que fecha no vermelho — mês sim, mês não — e em como o discurso de que “é só apertar aqui, cortar ali” soa, quando praticado, como moralização barata: cortar assinatura de streaming não paga parcela de quase 5 mil reais por 30 anos.
chego ao apartamento alugado. tiro o sapato pisando no chão frio. há um copo esquecido desde a manhã na pia. abro o app do banco novamente — por hábito ou por castigo — e o número me olha com uma calma cruel.
era pra gente ter 30 e tantos e orbitando o melhor da vida. a frase repetida na mesa virou uma ironia dura demais para acomodar no travesseiro. a gente fez tudo certo, construiu currículo, pagou cursos, viajou, investiu tempo em terapia, criou hábitos bons. ainda assim, o mundo — com seus choques geopolíticos, seus preços que sobem escondidos atrás de manchetes e sua conta ambiental crescendo — abre uma lacuna que não fecha com boas intenções.
no fim, sento no sofá e penso que a conta não fecha. nem a nossa, nem a do planeta. a constatação é seca: não vivemos o melhor. vivemos o aviso.


