contos de gin // #82
toda mulher tem uma história com banheiro de bar
ilha de desterro
em um bar sujinho do centro leste e viagens desastrosas, amores tóxicos, casamento e gravidez, aprenderam a rir da “amizade de emergência” que virou permanência
toda vez que alguém pergunta como eu e a Lara nos conhecemos, ela ri antes de responder. ri daquele jeito que já antecipa a história, como quem diz “você não vai acreditar”. e eu fico olhando para a barriga dela — redonda, firme, sete meses — pensando que a filha dela vai crescer ouvindo que a madrinha apareceu por causa de um encontro ruim e de um banheiro de bar com luz branca demais.
“a gente se conheceu no banheiro”, ela diz. e sempre tem alguém que arregala os olhos, esperando o resto. como se banheiro fosse sinônimo de tragédia ou fofoca ou algo mais escandaloso do que realmente foi.
foi simples. ela estava com medo. eu estava lavando as mãos.
não era um banheiro bonito. três cabines, uma lixeira transbordando papel, espelho comprido que não perdoava olheira. o chão molhado perto da pia. música atravessando a porta. ela entrou rápido demais e encostou as costas na parede como quem mede a distância até a saída.
eu perguntei se estava tudo bem. ela disse que o cara estava lá fora. que segurou o braço dela. que ficou irritado porque ela queria ir embora.
não lembro do rosto dele. lembro do braço dela com uma marca vermelha perto do pulso. pequena e suficiente.
quando contamos essa parte, sempre vira piada. “amiga de banheiro é mais leal que muito primo”, a Lara diz, segurando a taça de vinho como se estivesse fazendo um brinde. entre risadas, alguém sempre comenta que também já foi salva por uma desconhecida em fila de festa.
a gente exagera os detalhes. eu digo que passei batom nela para parecer que já éramos amigas. ela diz que eu falei “estamos indo” antes de ela decidir qualquer coisa. todo mundo acha romântico. improvável. cinematográfico.
ninguém menciona que, naquele momento, eu pensei que poderia simplesmente lavar as mãos e sair. ninguém menciona que a maioria das mulheres já esteve naquele banheiro, mesmo que em outro endereço.
depois daquele dia, trocamos algumas mensagens. primeiro para saber se ela chegou em casa. depois para rir da situação. depois porque descobrimos que tínhamos amigos em comum. depois porque já era hábito.
nossa amizade começou assim: um gesto prático que vira permanência.
eu conheci a Lara antes de conhecer qualquer namorado dela. conheci antes de conhecer a mãe dela. antes de saber qual era a comida que ela odiava. conheci no instante em que ela estava tentando decidir se saía do banheiro sozinha ou não.
talvez por isso tenha dado certo.
as nossas amigas dizem que a gente se encontrou no “fundo do poço”. é mais dramático. mas não foi fundo de poço. foi azulejo azul e papel toalha molhado. foi porta fechada e voz masculina chamando pelo nome.
depois vieram os perrengues normais. a viagem em que o carro quebrou na estrada e passamos quatro horas sentadas no acostamento, revezando ligações para o seguro. a vez em que ela namorou uma mulher que dizia que não tinha ciúme, mas checava o horário em que a Lara ficava online. o meu namorado que achava que amizade feminina era “exagero emocional” e tentou me convencer de que eu estava “dependente demais” dela.
a gente passou por essas pessoas como se atravessasse um corredor estreito. às vezes arranhadas. às vezes rindo.
quando ela se casou, eu segurei o véu antes de entrar na cerimônia. quando eu terminei um relacionamento que durou anos, foi na casa dela que eu fiquei deitada no chão da sala, olhando para o teto, sem querer falar. a gente nunca teve uma conversa formal sobre “estar uma pela outra”. simplesmente aconteceu.
ela me disse que estava grávida no mesmo bar em que nos conhecemos. não no banheiro. na mesa da calçada, luz amarela, cadeira desconfortável. ela colocou minha mão na barriga ainda discreta e disse “acho que agora você não se livra de mim”. eu ri.
agora, toda vez que ela conta a história do banheiro, acrescenta o final: “e hoje ela vai ser madrinha da minha filha”. as pessoas fazem aquele som coletivo de “aaaah” que parece aprovação pública.
eu fico olhando para o copo na minha mão, para o jeito como ela apoia as costas na cadeira, para o corpo que mudou de forma. a gente diz que é destino. que era para ser. que tinha que acontecer. mas, se eu for honesta — e eu quase nunca sou nessa parte — foi escolha. eu poderia ter fingido que não vi. ela poderia ter dito que estava tudo bem. ninguém ia nos culpar.
quando penso na filha dela me chamando de tia ou dinda, penso naquela porta do banheiro, naquela pausa de meio segundo antes de eu responder “já estamos indo”.
às vezes, em jantares com outras amigas, alguém brinca: “cuidado com quem você conhece no banheiro, pode virar madrinha do seu filho”. todo mundo ri.
eu também. mas há um pensamento que eu nunca digo em voz alta, nem para a Lara. às vezes, o que sustenta uma amizade não é afinidade, não é gosto parecido, não é compatibilidade de agenda: é o fato de que uma viu a outra com medo e decidiu não sair.
e isso cria uma dívida que nenhuma de nós admite, mas também nunca esquece.
qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência. não acredite em escritores - somos bichos ávidos por contar histórias e encantar as pessoas. não confunda criador e criatura. a regra aqui é confundir e gerar fofocas. até semana que vem.
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