contos de gin // #81
adultos apaixonados são basicamente duas crianças tentando não transformar a cozinha num campo de batalha.
relacionamento é menos sobre destino e mais sobre escolha repetida sob pequenas irritações. é ali que mora a verdade — e quase ninguém quer falar sobre isso porque dá menos curtida que foto de beijo bonito. mas engajamento de verdade nasce quando alguém se reconhece na própria contradição.
floripa, ano par. vida que segue.
você diz que eu sempre tenho um filme ou livro como referência. um ônibus que fura o sinal vermelho claramente é sobre velocidade máxima. um casal discutindo no meio da rua é automaticamente cinema francês. uma mulher atravessando a faixa com óculos escuros grandes demais para o rosto é personagem secundária de alguma sitcom.
foi assim que você me encontrou no bloquinho — não como quem encontra uma mulher suada, com glitter na clavícula e cerveja morna na mão, mas como quem encontra uma protagonista atrasada para a própria entrada triunfal. “essa aqui chegou no segundo ato”, eu disse, antes mesmo de perguntar o teu nome. você deveria ter revirado os olhos. mas você resolveu rir. e já era tarde demais.
estamos na cozinha num domingo que começou tarde demais. eu de camiseta velha, você de cabelo preso em um coque torto, as duas canecas de café já pela metade e uma pia que decidiu nos desafiar com sua existência acumulada. você segura um pano de prato como se fosse microfone e anuncia: “hoje, no episódio especial de ‘casal adulto tentando funcionar’, veremos se elas conseguem lavar a louça sem discutir.” eu digo que a audiência está baixa. você responde que a crítica especializada gosta de tensão doméstica.
eu respondo que o orçamento é baixo e que não temos trilha sonora. você encosta o ombro no meu e diz que não precisa, que a química segura a cena. eu reviro os olhos, mas sorrio. você sempre sabe onde tocar para me fazer rir antes que eu consiga sustentar a irritação.
a verdade é que acordei com dor de cabeça. aquela dor pequena, insistente, que não justifica drama. você percebe antes que eu fale. “roteiro de comédia romântica independente”, você diz, “protagonista acorda irritada, mas ainda assim decide amar.” eu quase respondo atravessado, mas a sua mão encosta na minha cintura com cuidado demais para ser piada.
eu penso, enquanto você fala qualquer coisa sobre o detergente, que talvez o amor adulto seja exatamente isso: a capacidade de continuar mesmo quando o dia não coopera.
não estamos num bloquinho. não há marchinha nem glitter grudado na pele. há contas pagas, uma agenda dividida no aplicativo compartilhado e um cansaço que chega mais cedo do que gostaríamos. ainda assim, quando você encosta a testa na minha e diz “essa parte aqui é trilha sonora suave, tipo um lugar chamado notting hill”, eu sinto aquele calor conhecido.
você insiste que eu tenho um comentário cinematográfico para tudo. se a vizinha discute no corredor, é drama italiano. se o mercado erra a entrega, é filme independente sobre fracasso urbano. mas é quando eu fico quieta demais que você pergunta se estou ensaiando monólogo.
de repente, nós duas transformamos a minha mania em um ordinário palco — e eu, que sempre precisei de narrativa para entender o mundo, me sinto segura nesse teatro que improvisamos pra deixar a vida mais leve.
“qual é o gênero da gente?”, você pergunta enquanto enxuga um prato. eu digo que talvez sejamos romance doméstico, daqueles que não vendem tanto porque não têm reviravolta mirabolante, muito menos um vilão. você protesta: “tem sim. a reviravolta é a gente continuar escolhendo.” eu completo dizendo que o vilão pode ser o orgulho. você diz que talvez seja a falta de café. e a gente ri de novo.
há pequenas discussões, claro. sobre quem esqueceu a luz acesa. sobre quem está mais cansada. sobre a toalha molhada na cama. nada extraordinário o suficiente para render premiação, mas real o bastante para exigir ajuste.
a diferença é que, no meio da discussão, você ainda encontra espaço para piada. “essa é a cena em que o casal quase se separa por causa de uma esponja”, você anuncia, dramática, segurando o utensílio como se fosse prova de crime. eu rio antes de conseguir sustentar a irritação. e o riso desarma.
talvez seja isso que me faz acreditar no amor ainda: não a ausência de conflito, mas a vontade evidente de continuar a história mesmo quando o roteiro emperra.
a dor de cabeça começa a ceder. você coloca água no copo e empurra na minha direção como quem resolve o subtrama. “hidratação é arco de personagem”, diz. eu respondo que você está insuportável. você pergunta se isso significa apaixonante. eu beijo sua boca com gosto de café.
eu penso que existe uma coragem discreta em amar no dia a dia. amar quando a casa está bagunçada, quando o trabalho não empolga, quando a vontade de ficar em silêncio é maior do que a de conversar. amar quando a pessoa do seu lado conhece suas manias menos interessantes e ainda assim decide ficar.
você se aproxima da janela e aponta um casal atravessando a rua. “comédia romântica leve”, decreta. eu pergunto por quê. você responde: “porque eles estão andando devagar demais para quem tem pressa.” eu observo. talvez você esteja certa.
eu sempre tive medo de que o amor só fosse válido quando espetacular. quando dramático. quando intenso ao ponto de ser quase insustentável. mas aqui estamos nós, discutindo sobre a marca do sabão e planejando o jantar de quarta-feira, e ainda assim há algo quente correndo sob a superfície.
você se aproxima de mim outra vez, dessa vez sem comentário, encosta o queixo no meu ombro, ficamos ali alguns segundos. “qual é o título desse filme?”, você pergunta com a voz aveludada. eu digo que digo que a gente não precisa ser filme. já é suficiente que seja nosso.
você sorri daquele jeito que parece saber exatamente onde estamos, mesmo sem mapa. a pia está limpa agora. o café acabou. a dor de cabeça sumiu. nada fantástico aconteceu. ninguém atravessou continentes. ninguém fez declaração pública. ninguém pichou muros.
entretanto é quando você me chama para sentar no sofá e encosta sua perna na minha que eu agradeço que no nosso amor não tenha cenas mirabolantes, beijos na chuva, declarações em embarques de viagens… o nosso amor tem continuidade, continua depois que os créditos sobem.
talvez ele seja mais parecido com essa cozinha de domingo — um pouco caótica, um pouco cansada, mas cheia de intenção.
e essa referência, só a gente tem. que bom, meu amor.
qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência. não acredite em escritores - somos bichos ávidos por contar histórias e encantar as pessoas. não confunda criador e criatura. a regra aqui é confundir e gerar fofocas. até semana que vem.
saiba mais sobre meu trabalho em paulachiodo.com.br
conheça meu novo livro Ensaio de Despedidas

suas palavras me aquecem em um dia frio e cinza