contos de gin // #66
a velha do andar de cima
dona Helena foi o espelho do passado. Luiza, o reflexo do futuro. Entre as duas, o presente se fez eterno.
Dona Helena morava no mesmo apartamento havia vinte e dois anos. Sabia o barulho de cada vizinho: o casal do 303 que brigava às quartas, o estudante do 201 que ensaiava violão, o cachorro do 605 que latia só quando o elevador parava no andar. A rotina era precisa, como tudo nela: café às sete, noticiário às oito, caminhada curta pela praça às nove.
Luiza chegou como quem acende uma lâmpada num cômodo esquecido. Sete anos, cabelo preso em duas tranças tortas, uma curiosidade infinita no olhar. A família havia se mudado fazia pouco. Dona Helena notou primeiro pelo som: passos leves, desajeitados, correndo de um lado pro outro. Depois, pela campainha.
— Oi, você é a vizinha velha? — perguntou Luiza, com a franqueza das crianças que ainda não aprenderam a disfarçar.
Dona Helena franziu o cenho, mas achou graça.
— Sou. E você é a vizinha nova? — respondeu, seca.
Luiza riu, como se tivessem acabado de firmar um contrato. No dia seguinte, apareceu de novo. E no outro. Até que Dona Helena, por alguma razão que nem ela compreendia, passou a deixar a porta entreaberta no meio da tarde.
A primeira visita durou dez minutos. A segunda, uma hora. Na terceira, já havia bolo de milho e café com leite. Luiza falava sem parar, pulando de assunto como quem pula poças depois da chuva. Dona Helena respondia com frases curtas, pausadas, de quem pesa cada palavra antes de deixá-la sair.
— A senhora já casou?
— Já. Uma vez só, por teimosia.
— E deu certo?
— Durou quinze anos, o que, olhando bem, é quase uma eternidade.
— E por que acabou?
— Porque eu descobri que dava pra ser feliz sem precisar pedir permissão.
Luiza demorou pra entender, mas achou bonito.
— Então a senhora é livre?
— Sou viúva, que é o jeito mais burocrático de ser livre — respondeu Helena, e sorriu com o canto da boca.
As conversas foram ficando mais longas, mais cheias de histórias. Dona Helena contava do tempo em que o país era outro — ou fingia ser. Falava da época em que ser mulher, professora e ter opinião era quase um crime.
— Um dia bateram na minha porta — disse, servindo bolo de chocolate. — Não era visita.
— Era o quê?
— Gente que achava perigoso pensar diferente.
— E o que a senhora fez?
— Pensei mais ainda.
Luiza arregalou os olhos.
— E te prenderam?
— Um pouquinho. Mas me soltaram quando perceberam que eu era mais teimosa do que perigosa.
A menina não entendia tudo, mas entendia o essencial: que Dona Helena era corajosa.
Achava fascinante imaginar a vizinha num tempo em que as pessoas iam presas por falar o que pensavam — e, mesmo assim, ela tinha continuado a falar.
— E a senhora não teve filhos? — perguntou Luiza certa tarde.
— Tive uma filha. Mora longe, mas me liga às vezes.
— A senhora sente saudade?
— Sinto. Mas a saudade é um tipo de companhia, sabia? Ocupa a casa, faz barulho, deixa a gente menos sozinha.
Luiza ficou em silêncio, como quem anota uma coisa importante.
Dona Helena aproveitou e lhe ensinou uma palavra nova: melancolia.
— É uma tristeza que não dói, só pensa — explicou.
Luiza repetiu devagar, gostando do som.
— Melan... colia. É bonito.
A menina passou a pedir pra mãe deixá-la subir todos os dias. Às vezes, Dona Helena fingia que não queria, dizia que estava cansada, mas deixava a porta destrancada. No corredor, o cheiro de bolo já anunciava a visita.
Falavam de tudo: do colégio, dos pássaros que vinham na janela, das palavras difíceis.
Luiza aprendeu o que era “utopia”, “memória”, “injustiça”.
Dona Helena aprendeu o que era “trend”, “meme”, “crush”.
Uma tarde, a menina desenhou as duas sentadas à mesa. Embaixo, escreveu com letras tortas: Minha melhor amiga.
Dona Helena olhou o desenho e disse:
— Isso é bonito demais pra apagar um dia.
— Então guarda pra sempre — respondeu Luiza.
E ela guardou, dobradinho dentro de um livro de poesias, como quem arquiva um pedaço de futuro.
A partir daí, o apartamento de Dona Helena deixou de ser o andar de cima. Virou o lugar onde o tempo fazia pausas — onde o passado ensinava o futuro a respirar devagar. E toda vez que Luiza tocava a campainha, o som ecoava como lembrança de tudo o que ainda é possível entre duas pessoas que não têm pressa de ir embora.
Anos depois, Luiza voltou ao prédio.
O elevador ainda fazia o mesmo barulho de sempre, aquele suspiro metálico antes da porta abrir. O corredor parecia menor — talvez porque ela tivesse crescido, talvez porque a infância sempre encolhe com o tempo.
Parou diante da porta do 601, respirou fundo. Bateu uma, duas vezes. Nenhuma resposta.
A fechadura tinha sido trocada e atrás da porta morava outra família — dessas com cachorro e televisão alta.
Luiza agradeceu, sorriu e desceu as escadas devagar, como quem volta no tempo.
Na portaria, o zelador a reconheceu.
— Você é a menina da Dona Helena, né?
— Era. Quer dizer, fui.
— Ela falava muito de você. Dizia que você era a única que ainda acreditava no mundo.
Luiza riu, com os olhos marejados. Pensou na velha professora, no bolo de milho, nas palavras complicadas que aprendeu antes de entender o que significavam.
Pensou em melancolia, e entendeu finalmente: é isso — uma tristeza que não dói, só pensa.
No caminho de volta, passou numa livraria e comprou um caderno.
Na primeira página, escreveu:
“Para Helena, que me ensinou que crescer é lembrar com delicadeza.”
E, naquela noite, sentou-se à mesa com uma taça de vinho, abriu o caderno e começou a escrever histórias — como quem acende pequenas luzes no escuro, uma para cada lembrança que insiste em ficar.
qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência. não acredite em escritores - somos bichos ávidos por contar histórias e encantar as pessoas. não confunda criador e criatura. a regra aqui é confundir e gerar fofocas. até semana que vem.
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Ahh que delicia de conto! 🥰