Contos de Gin // #15
nunca foi sobre camas.
as manhãs já estão mais frescas. seria a prévio do fim do verão?
será que haverá fim de verão com o aquecimento global bombando?
aguarando os próximo capítulos desse fim de mundo.
antes de completar 1 ano de idade, eu já dormia em um colchão no chão do quarto. para garantir que eu não cairia, minha mãe me cercava com travesseiros. acredito que uma das minha lembranças mais antiga, sou eu acordando e rolando para fora do colchão, me apoiando toda desengonçada na parede e caminhando em busca da minha mãe. eu deveria ter 3 anos.
o colchão no chão, criou uma independência de poder acordar e decidir o que eu queria fazer. chorar? chamar a mãe? ir andando para sala? eu tinha a casa toda para explorar, até alguém perceber que eu acordei.
aos 14 anos, comecei a dormir em cama de casal. fazia questão de ocupar todo o espaço, dormia no meio da cama, esparramada. bagunçava tudo em volta, travesseiros acabavam no chão. a corberta embolada nos pés. até o lençol de elástico escapava. eu me divertia aproveitando todo o espaço que havia.
eventualmente, eu comecei a dividir a cama. amigas que dormiam em casa depois da balada. affairs de uma noite só. namorades. sem perceber, eu deixei de ocupar o meio da cama. aos poucos fui descobrindo o lado que mais gostava de dormir. (de frente para a cama, sempre o lado esquerdo. sempre. é inegociável)
por vezes, um bolo de corpos se abraçam quase no meio da cama e assim ficava até o amanhecer. por outras vezes, os braços e pernas se misturam mais para o meu lado. algumas vezes, o abraço se dissolvia e eu terminava no cantinho da cama e a outra pessoa ocupando muito mais espaço.
ok, se você me conhece sabe que sou pequena. mais precisamente 1,57. a minha cama atual tem 160x188. eu caibo de atravessada na cama e ainda sobra 3 centímetros. mas isso não significa que tudo bem acabar no cantinho da cama.
não me importo com abraços e nós de pernas. gosto, inclusive. entretanto, tenho aprendido a não abrir mão do meu espaço. traço uma linha imaginária de até onde podemos dividir a cama. e do quanto eu preciso para ainda me espalhar.
isso não significa que precisamos dormir longe, significa que precisamos compreender em que ponto nos encontramos na cama.
cama. sofá. banhos.
sonhos. caminhos. desejos.
a gente vai dividindo muitas coisas.
tempo. presença. atenção.
cafés da manhã. louças pra lavar. dias de praia.
a gente vai compartilhando muitas coisas.
medos. viagens. cheiros.
trilhas. pratos. brindes.
aos poucos, a gente vai percebendo, que o calculo certo é somar.
foi numa quinta-feira de quase inverno que fui embora. de mim e de você. da casa que tínhamos. dos planos. dos sonhos que partilhamos. “ir embora de mim” - como se desse para a gente abrir a pele e vagar pelas ruas sem a carcaça da qual somos feitas. “emoções, amores e alma nos fazem também”, talvez você pense. das bonitezas da vida é sermos feitos de coisas não palpáveis. não visíveis. entretanto, somos feitas de carne, osso, sangue, instestino, fígado e milhares de células que nos deixam vivos. e sumir é algo não reversível.
naquela quinta-feira eu fui embora. com malas e choros trancados na garganta. me ardia o amor e os machucados. não disse tchau. peguei o pouco de mim que havia sobrado e parti.
algumas vezes, precisamos tocar os pés (ou a cara) no fundo do poço para perceber que é só sensação. o coração não vai sair pela boca. o pulmão não vai colapsar. não vamos morrer. é só sensação.
e sensação, sensação passa. uma hora ou outra, passa.
na partida, eu notei as diferenças.
acontecimento é concreto. fato confirmado.
eu fui embora.
sensação é fanfic. um parecer. é teu cérebro querendo sentimentalizar a razão.
eu sentia o chão abrir sob meus pés.
foi numa quinta-feira de céu sem nuvens que eu fui embora. de você. me encontrei submersa de outros quereres. moldada para ser algo que eu não sabia ser. mascarando a fragilidade que carregava dentro de mim. me encontrei saudadosa de me espalhar com a certeza de estar sendo bem-vinda.
naquela quinta-feira eu arrumei a cama. escrevi tantas palavras. escutei música. brindei o ardido que ainda estava na garganta. chorei. dormi espalhada feito estrela-do-mar-e-do-céu na cama.




